Pessoas esperam em uma fila.
-É aqui a fila?
-Sim.
-Ótimo, achei que tinha me enganado.
-É aqui mesmo.
-Há quanto tempo você tá aqui?
-Eu não saberia dizer.
-É? Você acha que vai demorar muito?
-Não sei.
-Mas tá andando rápido pelo menos?
-Não prestei atenção.
-Não quero perder meu tempo aqui.
-Besteira. Todo mundo tem que pegar a fila.
-Eu sei, mas não queria fazer isso agora.
-Ninguém quer.
-Nem todos. Você parece não se incomodar.
-Por que deveria? É só uma fila.
-Mas você não tá nem ansioso pra chegar sua vez?
-Daqui a pouco chega, é só esperar.
Não havia relógios mas algum tempo se passou.
-Deve ter alguma coisa errada, ainda não nos mexemos.
-É assim mesmo.
-Não é possível que seja assim, eu vou descobrir o que tá acontecendo.
-Quando descobrir me avisa.
...
-E então, como foi?
-Olha, eu falei com muitas pessoas da fila, que também estavam esperando.
-E o que descobriu?
-Acho que ela é assim mesmo, tem que esperar.
-Eu te falei. Basta esperar.
-É, foi o que todos disseram.
-Sim.
-Só uma coisa que não entendi direito, que ninguém soube me explicar muito bem.
-Diga.
-O que exatamente devemos esperar?
-Ué, estamos esperando chegar a nossa vez na fila.
-Sim, mas e aí? O que acontece quando chega a nossa vez?
-Quando chega nossa vez a gente não precisa mais esperar.
Nem os relógios saberiam dizer quanto tempo se passou, mas a vez deles chegou. Depois de toda
essa espera, finalmente era a hora de descobrir o que os aguardaria no final da fila. Olharam-se uma última vez e caminharam confiantemente. Na sua frente, havia apenas uma pequena mesa redonda de madeira, que servia de apoio a uma máquina da qual saiam papéis. Cada um puxou um. Era uma senha.
Pessoas ordenadamente esperam em uma fila.
quarta-feira, 22 de outubro de 2014
quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Bem comum
São 6:02 e o dia de trabalha acabou de começar. Centenas de homens engravatados e carecas infestam a grande e bem iluminada sala. O barulho é ensurdecedor. Gritos, telefonemas, campainhas, alarmes, clicks. Incessantemente correm os homens, carregendo pilhas de papéis enquanto tentam abrir caminho pela multidão. Sem pausas para tomar fôlego, eles checam emails, leem cartas e atendem telefonemas. As mensagens chegam ininterruptamente: "Não vejo a hora de acabar" "só mais 5 minutinhos" "espero que passe voando" "um segundo, já vou" "assim eu vou chegar atrasado" "bem que podia chegar logo". No centro da sala, um gigantesco relógio de mármore bate sem parar, ao qual os homens dirigem seus olhares preocupados a todo instante. Todos gritam em direção a um pequenino homem barbudo, sentado num banquinho ao lado do relógio, que gira uma velha manivela de madeira continuamente. Só se ouvem duas coisas no ambiente: "Mais rápido!". "Mais devagar!". Nenhum dia de trabalho é fácil no Ministério do Tempo.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
A vida é feita de títulos
A vida é feita de momentos. É uma coisa até que óbvia, o tempo é a somatória de momentos. Mas não fale isso prum físico, porque essa frase perde totalmente sentido no ambiente científico. A vida é feita de fórmulas. É provavelmente o que esse mesmo ambiente pensa, e faz perfeita direção, visto que todo o mundo é regido por componentes químicos e leis matemáticas descritas por fórmulas. Para alguns, capazes de encontrar padrões em tudo, isso é óbvio. A vida é feita de certezas. Mas essa percepção não é onipresente. Outros, talvez menos objetivos e mais desiludidos, pensem de forma oposta. A vida é feita de acasos. Uma série incalculável de acasos em sequência leva a um encontro. Certo, certo? Afinal, a vida é feita de encontros. Uma grande figura da cultura disse isso. E esse é apenas mais um entre tantos dizeres famosos na história. A vida é feita de frases. Ou a vida é feita de histórias? Difícil afirmar, certamente pode-se dizer que ocorre o inverso, o que realmente importa é o que está por vir. A vida é feita de expectativas. Mas esperar demais pode impedir que se aproveite o presente, algo que ninguém deseja. A vida é feita de desejos. Sendo assim, qual o objetivo desse autor, passar a mensagem que a vida é feita de desejos? Ou ainda, mostrar que a vida é feita de mensagens? Pior, mostrar que a vida é feita de perguntas? A vida é feita de exclamações! A vida é feita de textos semi-pretensiosos mal escritos. A vida é feita de autocrítica. A vida é feita de insegurança intelectual... A vida é feita de momentos repentinos de autoconfiança! A vida é feita de revelações! Que a vida é sua e que você tem o poder de fazer com ela o que quiser. A vida é feita de possibilidades. Infinitas possibilidades. A vida é feita de infinitas possibilidades difertentes? Afinal, a vida é feita do quê exatamente?
A vida é feita de qualquer coisa que você colocar aqui. "A vida é feita de" é só uma frase genérica que você aplicar para tudo e ainda assim vai parecer que você emitiu uma máxima incontestável.
Obs: A vida é feita de obervações.
A vida é feita de qualquer coisa que você colocar aqui. "A vida é feita de" é só uma frase genérica que você aplicar para tudo e ainda assim vai parecer que você emitiu uma máxima incontestável.
Obs: A vida é feita de obervações.
domingo, 21 de setembro de 2014
O Vendedor de Pentes
A maneira como um indivíduo arranja as palavras ganhar e vida na frase revela muito de como eles enxergam a existência, o que cada um deseja; pessimistas querem ganhar da vida, ambiciosos ganhar na vida, esforçados ganhar a vida e miseráveis ganhar vida. Nosso vendedor é um homem que ganha a vida vendendo pentes. Todo dia ele levanta da cama às quatro e trinta e dois da manhã (o despertador está ajustado para tocar as quatro e meia, mas ele passa alguns minutos se espreguiçando). Toma um banho, toma um café, prepara seu lanche e prepara sua cesta de pentes. Calça seus chinelos azuis da sorte (ele só tem esse par de chinelos) e segue seu caminho em direção ao trabalho.
São cinco e quinze da manhã. Na praia, há apenas areia, o mar, ele, conchas, sujeira e algumas pessoas. Ele sorri, é um grande dia. Se aproxima de uma mulher. Uma potencial cliente, a primeira do dia talvez. Afinal, todo mundo precisa de um pente. Ela usa um casaco rosa, um boné branco, tênis de corrida e um aparelho do qual sai música conectado aos ouvidos. Ele corre ao seu lado. Bom dia atleta! O que você acha de comprar um pente? Tenho diversas cores, inclusive rosa. Ela fez um gesto negativo com a mão aberta. Provavelmente nem ouviu o que ele disse. Outros clientes virão.
Aos poucos, a praia vai se enchendo de pessoas. Ele se aproxima de um jovem garoto de boné. O garoto fazia um castelo de areia a beira do mar, naquela região onde a maré chega apenas as vezes. Ei menino! O que acha de comprar um pente? O garoto respondeu que não tinha dinheiro, pois tinha apenas seis anos de idade. Tentou mudar seu público alvo e foi em direção ao pai, que olhava desconfiado de uma cadeira a alguns metros. Usava óculos escuros, trajava bermuda florida e vestia um imponente bigode. Belo dia senhor! Um dia melhor ainda para se comprar esse belíssimo pente de cabelo! O homem de bigode ficou furioso e pediu-se para ele se retirar, por meio de palavrões. Não era a primeira vez que um cliente careca reagia desse jeito.
Aproximou-se de uma senhora de alguma idade que estava tomando sol de bruços. Colocou os pentes de cores mais claras e com detalhes floridos na parte de frente da cesta, como foi instruído a fazer no curso de vendas. Agachou-se ao lado da espreguiçadeira. A senhora tem um cabelo radiante, mas acredito que ficaria ainda melhor se penteado com alguns desses pentes. A senhora abriu os olhos, encarou o sorriso do vendedor, olhou para a cesta de pentes, voltou para o vendedor e virou o pescoço para o outro lado, tentando pegar no sono novamente.
Deu uma olhada na cesta de pentes. Estava idêntica a cesta de manhã, um pouco mais suja talvez. Olhou seu reflexo no vidro de uma perua. Seu sorriso permanecia o mesmo. O Sol se punha atrás do Mar, fazendo um pôr-de-sol bastante bonito. Um bom escritor ou poeta certamente saberia descrever esse cenário de uma maneira bastante agrádavel e lúdica ao seu leitor. Ele não lia muitos livros (nem poucos, nem nenhum) mas achou a cena bastante bonita também. Ficou um bom tempo parado admirando a praia.
Ele não era muito bom vendedor.
São cinco e quinze da manhã. Na praia, há apenas areia, o mar, ele, conchas, sujeira e algumas pessoas. Ele sorri, é um grande dia. Se aproxima de uma mulher. Uma potencial cliente, a primeira do dia talvez. Afinal, todo mundo precisa de um pente. Ela usa um casaco rosa, um boné branco, tênis de corrida e um aparelho do qual sai música conectado aos ouvidos. Ele corre ao seu lado. Bom dia atleta! O que você acha de comprar um pente? Tenho diversas cores, inclusive rosa. Ela fez um gesto negativo com a mão aberta. Provavelmente nem ouviu o que ele disse. Outros clientes virão.
Aos poucos, a praia vai se enchendo de pessoas. Ele se aproxima de um jovem garoto de boné. O garoto fazia um castelo de areia a beira do mar, naquela região onde a maré chega apenas as vezes. Ei menino! O que acha de comprar um pente? O garoto respondeu que não tinha dinheiro, pois tinha apenas seis anos de idade. Tentou mudar seu público alvo e foi em direção ao pai, que olhava desconfiado de uma cadeira a alguns metros. Usava óculos escuros, trajava bermuda florida e vestia um imponente bigode. Belo dia senhor! Um dia melhor ainda para se comprar esse belíssimo pente de cabelo! O homem de bigode ficou furioso e pediu-se para ele se retirar, por meio de palavrões. Não era a primeira vez que um cliente careca reagia desse jeito.
Aproximou-se de uma senhora de alguma idade que estava tomando sol de bruços. Colocou os pentes de cores mais claras e com detalhes floridos na parte de frente da cesta, como foi instruído a fazer no curso de vendas. Agachou-se ao lado da espreguiçadeira. A senhora tem um cabelo radiante, mas acredito que ficaria ainda melhor se penteado com alguns desses pentes. A senhora abriu os olhos, encarou o sorriso do vendedor, olhou para a cesta de pentes, voltou para o vendedor e virou o pescoço para o outro lado, tentando pegar no sono novamente.
Deu uma olhada na cesta de pentes. Estava idêntica a cesta de manhã, um pouco mais suja talvez. Olhou seu reflexo no vidro de uma perua. Seu sorriso permanecia o mesmo. O Sol se punha atrás do Mar, fazendo um pôr-de-sol bastante bonito. Um bom escritor ou poeta certamente saberia descrever esse cenário de uma maneira bastante agrádavel e lúdica ao seu leitor. Ele não lia muitos livros (nem poucos, nem nenhum) mas achou a cena bastante bonita também. Ficou um bom tempo parado admirando a praia.
Ele não era muito bom vendedor.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O Garçom
-Boa noite senhor, seja bem-vindo à casa. Meu nome é garçom e eu serei seu garçom esta noite. Em que posso servi-lo?
-Boa noite, eu gostaria de dar uma olhada no cardápio.
-Um momento, por favor.
.
-Aqui está, senhor.
-Obrigado.
..
-Eu gostaria de pedir o filé mignon ao molho madeira com risotto parma.
-Verei o que pode ser feito, senhor.
...
-Aqui está. Um belíssimo salmão à provençal acompanhado de cuscuz marroquino.
-Garçom, receio que tenha havido um engano, esse não foi meu pedido.
-O senhor está correto. No entanto, não há nada que eu possa fazer.
-Como assim?
-Aqui no restaurante nós temos a filosofia de sempre fazer o melhor para o cliente. Estamos certos de que o salmão despertará mais seu paladar que o filé. Por isso, não podemos deixar que o senhor escolha seu prato. Além do mais, carne vermelha não é muito saudável nessa idade e o risotto tem bastante colesterol. Só estamos fazendo o melhor para o senhor, senhor.
-Mas isso não foi o que pedi. Eu gostaria do filé com risotto.
-Eu compreendo senhor e insisto: coma o salmão, ele irá agradá-lo.
..
-Hum.
.
-E então, senhor?
-Realmente, estou surpreso. O prato está bastante apetitoso. O salmão está perfeitamente temperado, em uma mescla de acidez e frescor. O molho por sua vez possui uma pitada de prepotência presumida, mas não deixa de lado uma certa nostalgia frutada. O cuscuz, por outro lado, parte tanto do surrealismo azeitado quanto da lucidez agridoce para convergir em um único sabor adocicado de orvalho.
-Foi o que imaginamos. Agora o senhor aprova nossa filosofia?
-Não.
-Boa noite, eu gostaria de dar uma olhada no cardápio.
-Um momento, por favor.
.
-Aqui está, senhor.
-Obrigado.
..
-Eu gostaria de pedir o filé mignon ao molho madeira com risotto parma.
-Verei o que pode ser feito, senhor.
...
-Aqui está. Um belíssimo salmão à provençal acompanhado de cuscuz marroquino.
-Garçom, receio que tenha havido um engano, esse não foi meu pedido.
-O senhor está correto. No entanto, não há nada que eu possa fazer.
-Como assim?
-Aqui no restaurante nós temos a filosofia de sempre fazer o melhor para o cliente. Estamos certos de que o salmão despertará mais seu paladar que o filé. Por isso, não podemos deixar que o senhor escolha seu prato. Além do mais, carne vermelha não é muito saudável nessa idade e o risotto tem bastante colesterol. Só estamos fazendo o melhor para o senhor, senhor.
-Mas isso não foi o que pedi. Eu gostaria do filé com risotto.
-Eu compreendo senhor e insisto: coma o salmão, ele irá agradá-lo.
..
-Hum.
.
-E então, senhor?
-Realmente, estou surpreso. O prato está bastante apetitoso. O salmão está perfeitamente temperado, em uma mescla de acidez e frescor. O molho por sua vez possui uma pitada de prepotência presumida, mas não deixa de lado uma certa nostalgia frutada. O cuscuz, por outro lado, parte tanto do surrealismo azeitado quanto da lucidez agridoce para convergir em um único sabor adocicado de orvalho.
-Foi o que imaginamos. Agora o senhor aprova nossa filosofia?
-Não.
sábado, 6 de setembro de 2014
Toda argumentação é uma definição de conceitos
Quando duas pessoas discutem se A é ou não é B, elas estão na verdade tentando definir B e, posteriormente, se A se enquadra nessa definição. A maior parte das discussões é inconclusiva justamente porque as pessoas tem definições de B diferentes.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Altertítulo
O ser humano habita simultaneamente dois meios, alteridade e realidade. O primeiro é exclusivo e singular para cada indivíduo. Ele está constantemente sujeito a transformações radicais, reversíveis e instantâneas. Nele o ser humano desfruta de um alto grau de liberdade. O segundo é seu oposto. É coletivo a todos indivíduos, suas transformações são processos burocráticos e a liberdade é severamente limitada. Não há alguém que fuja desses dois meios e todos estamos em eterna transição entre eles.
A alteridade é infinitamente mais agravável que a realidade.
Não é surpreendente que alguns passem grande parte do seu tempo nesse meio. As pessoas tendem a achar o outro insuportável. Por isso, o que cada indivíduo faz é tentar transformar o meio coletivo no seu meio individual. Toda ação planejada de um indivíduo na vida tem como objetivo aproximar-se desse meio. A satisfação pessoal está intrinsecamente ligada ao êxito dessas ações.
A vida pode ser resumida como bilhões de pessoas simultaneamente tentando transformar a mesma realidade em bilhões de diferentes alteridades.
A alteridade é infinitamente mais agravável que a realidade.
Não é surpreendente que alguns passem grande parte do seu tempo nesse meio. As pessoas tendem a achar o outro insuportável. Por isso, o que cada indivíduo faz é tentar transformar o meio coletivo no seu meio individual. Toda ação planejada de um indivíduo na vida tem como objetivo aproximar-se desse meio. A satisfação pessoal está intrinsecamente ligada ao êxito dessas ações.
A vida pode ser resumida como bilhões de pessoas simultaneamente tentando transformar a mesma realidade em bilhões de diferentes alteridades.
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