quinta-feira, 9 de outubro de 2014
Bem comum
São 6:02 e o dia de trabalha acabou de começar. Centenas de homens engravatados e carecas infestam a grande e bem iluminada sala. O barulho é ensurdecedor. Gritos, telefonemas, campainhas, alarmes, clicks. Incessantemente correm os homens, carregendo pilhas de papéis enquanto tentam abrir caminho pela multidão. Sem pausas para tomar fôlego, eles checam emails, leem cartas e atendem telefonemas. As mensagens chegam ininterruptamente: "Não vejo a hora de acabar" "só mais 5 minutinhos" "espero que passe voando" "um segundo, já vou" "assim eu vou chegar atrasado" "bem que podia chegar logo". No centro da sala, um gigantesco relógio de mármore bate sem parar, ao qual os homens dirigem seus olhares preocupados a todo instante. Todos gritam em direção a um pequenino homem barbudo, sentado num banquinho ao lado do relógio, que gira uma velha manivela de madeira continuamente. Só se ouvem duas coisas no ambiente: "Mais rápido!". "Mais devagar!". Nenhum dia de trabalho é fácil no Ministério do Tempo.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
A vida é feita de títulos
A vida é feita de momentos. É uma coisa até que óbvia, o tempo é a somatória de momentos. Mas não fale isso prum físico, porque essa frase perde totalmente sentido no ambiente científico. A vida é feita de fórmulas. É provavelmente o que esse mesmo ambiente pensa, e faz perfeita direção, visto que todo o mundo é regido por componentes químicos e leis matemáticas descritas por fórmulas. Para alguns, capazes de encontrar padrões em tudo, isso é óbvio. A vida é feita de certezas. Mas essa percepção não é onipresente. Outros, talvez menos objetivos e mais desiludidos, pensem de forma oposta. A vida é feita de acasos. Uma série incalculável de acasos em sequência leva a um encontro. Certo, certo? Afinal, a vida é feita de encontros. Uma grande figura da cultura disse isso. E esse é apenas mais um entre tantos dizeres famosos na história. A vida é feita de frases. Ou a vida é feita de histórias? Difícil afirmar, certamente pode-se dizer que ocorre o inverso, o que realmente importa é o que está por vir. A vida é feita de expectativas. Mas esperar demais pode impedir que se aproveite o presente, algo que ninguém deseja. A vida é feita de desejos. Sendo assim, qual o objetivo desse autor, passar a mensagem que a vida é feita de desejos? Ou ainda, mostrar que a vida é feita de mensagens? Pior, mostrar que a vida é feita de perguntas? A vida é feita de exclamações! A vida é feita de textos semi-pretensiosos mal escritos. A vida é feita de autocrítica. A vida é feita de insegurança intelectual... A vida é feita de momentos repentinos de autoconfiança! A vida é feita de revelações! Que a vida é sua e que você tem o poder de fazer com ela o que quiser. A vida é feita de possibilidades. Infinitas possibilidades. A vida é feita de infinitas possibilidades difertentes? Afinal, a vida é feita do quê exatamente?
A vida é feita de qualquer coisa que você colocar aqui. "A vida é feita de" é só uma frase genérica que você aplicar para tudo e ainda assim vai parecer que você emitiu uma máxima incontestável.
Obs: A vida é feita de obervações.
A vida é feita de qualquer coisa que você colocar aqui. "A vida é feita de" é só uma frase genérica que você aplicar para tudo e ainda assim vai parecer que você emitiu uma máxima incontestável.
Obs: A vida é feita de obervações.
domingo, 21 de setembro de 2014
O Vendedor de Pentes
A maneira como um indivíduo arranja as palavras ganhar e vida na frase revela muito de como eles enxergam a existência, o que cada um deseja; pessimistas querem ganhar da vida, ambiciosos ganhar na vida, esforçados ganhar a vida e miseráveis ganhar vida. Nosso vendedor é um homem que ganha a vida vendendo pentes. Todo dia ele levanta da cama às quatro e trinta e dois da manhã (o despertador está ajustado para tocar as quatro e meia, mas ele passa alguns minutos se espreguiçando). Toma um banho, toma um café, prepara seu lanche e prepara sua cesta de pentes. Calça seus chinelos azuis da sorte (ele só tem esse par de chinelos) e segue seu caminho em direção ao trabalho.
São cinco e quinze da manhã. Na praia, há apenas areia, o mar, ele, conchas, sujeira e algumas pessoas. Ele sorri, é um grande dia. Se aproxima de uma mulher. Uma potencial cliente, a primeira do dia talvez. Afinal, todo mundo precisa de um pente. Ela usa um casaco rosa, um boné branco, tênis de corrida e um aparelho do qual sai música conectado aos ouvidos. Ele corre ao seu lado. Bom dia atleta! O que você acha de comprar um pente? Tenho diversas cores, inclusive rosa. Ela fez um gesto negativo com a mão aberta. Provavelmente nem ouviu o que ele disse. Outros clientes virão.
Aos poucos, a praia vai se enchendo de pessoas. Ele se aproxima de um jovem garoto de boné. O garoto fazia um castelo de areia a beira do mar, naquela região onde a maré chega apenas as vezes. Ei menino! O que acha de comprar um pente? O garoto respondeu que não tinha dinheiro, pois tinha apenas seis anos de idade. Tentou mudar seu público alvo e foi em direção ao pai, que olhava desconfiado de uma cadeira a alguns metros. Usava óculos escuros, trajava bermuda florida e vestia um imponente bigode. Belo dia senhor! Um dia melhor ainda para se comprar esse belíssimo pente de cabelo! O homem de bigode ficou furioso e pediu-se para ele se retirar, por meio de palavrões. Não era a primeira vez que um cliente careca reagia desse jeito.
Aproximou-se de uma senhora de alguma idade que estava tomando sol de bruços. Colocou os pentes de cores mais claras e com detalhes floridos na parte de frente da cesta, como foi instruído a fazer no curso de vendas. Agachou-se ao lado da espreguiçadeira. A senhora tem um cabelo radiante, mas acredito que ficaria ainda melhor se penteado com alguns desses pentes. A senhora abriu os olhos, encarou o sorriso do vendedor, olhou para a cesta de pentes, voltou para o vendedor e virou o pescoço para o outro lado, tentando pegar no sono novamente.
Deu uma olhada na cesta de pentes. Estava idêntica a cesta de manhã, um pouco mais suja talvez. Olhou seu reflexo no vidro de uma perua. Seu sorriso permanecia o mesmo. O Sol se punha atrás do Mar, fazendo um pôr-de-sol bastante bonito. Um bom escritor ou poeta certamente saberia descrever esse cenário de uma maneira bastante agrádavel e lúdica ao seu leitor. Ele não lia muitos livros (nem poucos, nem nenhum) mas achou a cena bastante bonita também. Ficou um bom tempo parado admirando a praia.
Ele não era muito bom vendedor.
São cinco e quinze da manhã. Na praia, há apenas areia, o mar, ele, conchas, sujeira e algumas pessoas. Ele sorri, é um grande dia. Se aproxima de uma mulher. Uma potencial cliente, a primeira do dia talvez. Afinal, todo mundo precisa de um pente. Ela usa um casaco rosa, um boné branco, tênis de corrida e um aparelho do qual sai música conectado aos ouvidos. Ele corre ao seu lado. Bom dia atleta! O que você acha de comprar um pente? Tenho diversas cores, inclusive rosa. Ela fez um gesto negativo com a mão aberta. Provavelmente nem ouviu o que ele disse. Outros clientes virão.
Aos poucos, a praia vai se enchendo de pessoas. Ele se aproxima de um jovem garoto de boné. O garoto fazia um castelo de areia a beira do mar, naquela região onde a maré chega apenas as vezes. Ei menino! O que acha de comprar um pente? O garoto respondeu que não tinha dinheiro, pois tinha apenas seis anos de idade. Tentou mudar seu público alvo e foi em direção ao pai, que olhava desconfiado de uma cadeira a alguns metros. Usava óculos escuros, trajava bermuda florida e vestia um imponente bigode. Belo dia senhor! Um dia melhor ainda para se comprar esse belíssimo pente de cabelo! O homem de bigode ficou furioso e pediu-se para ele se retirar, por meio de palavrões. Não era a primeira vez que um cliente careca reagia desse jeito.
Aproximou-se de uma senhora de alguma idade que estava tomando sol de bruços. Colocou os pentes de cores mais claras e com detalhes floridos na parte de frente da cesta, como foi instruído a fazer no curso de vendas. Agachou-se ao lado da espreguiçadeira. A senhora tem um cabelo radiante, mas acredito que ficaria ainda melhor se penteado com alguns desses pentes. A senhora abriu os olhos, encarou o sorriso do vendedor, olhou para a cesta de pentes, voltou para o vendedor e virou o pescoço para o outro lado, tentando pegar no sono novamente.
Deu uma olhada na cesta de pentes. Estava idêntica a cesta de manhã, um pouco mais suja talvez. Olhou seu reflexo no vidro de uma perua. Seu sorriso permanecia o mesmo. O Sol se punha atrás do Mar, fazendo um pôr-de-sol bastante bonito. Um bom escritor ou poeta certamente saberia descrever esse cenário de uma maneira bastante agrádavel e lúdica ao seu leitor. Ele não lia muitos livros (nem poucos, nem nenhum) mas achou a cena bastante bonita também. Ficou um bom tempo parado admirando a praia.
Ele não era muito bom vendedor.
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
O Garçom
-Boa noite senhor, seja bem-vindo à casa. Meu nome é garçom e eu serei seu garçom esta noite. Em que posso servi-lo?
-Boa noite, eu gostaria de dar uma olhada no cardápio.
-Um momento, por favor.
.
-Aqui está, senhor.
-Obrigado.
..
-Eu gostaria de pedir o filé mignon ao molho madeira com risotto parma.
-Verei o que pode ser feito, senhor.
...
-Aqui está. Um belíssimo salmão à provençal acompanhado de cuscuz marroquino.
-Garçom, receio que tenha havido um engano, esse não foi meu pedido.
-O senhor está correto. No entanto, não há nada que eu possa fazer.
-Como assim?
-Aqui no restaurante nós temos a filosofia de sempre fazer o melhor para o cliente. Estamos certos de que o salmão despertará mais seu paladar que o filé. Por isso, não podemos deixar que o senhor escolha seu prato. Além do mais, carne vermelha não é muito saudável nessa idade e o risotto tem bastante colesterol. Só estamos fazendo o melhor para o senhor, senhor.
-Mas isso não foi o que pedi. Eu gostaria do filé com risotto.
-Eu compreendo senhor e insisto: coma o salmão, ele irá agradá-lo.
..
-Hum.
.
-E então, senhor?
-Realmente, estou surpreso. O prato está bastante apetitoso. O salmão está perfeitamente temperado, em uma mescla de acidez e frescor. O molho por sua vez possui uma pitada de prepotência presumida, mas não deixa de lado uma certa nostalgia frutada. O cuscuz, por outro lado, parte tanto do surrealismo azeitado quanto da lucidez agridoce para convergir em um único sabor adocicado de orvalho.
-Foi o que imaginamos. Agora o senhor aprova nossa filosofia?
-Não.
-Boa noite, eu gostaria de dar uma olhada no cardápio.
-Um momento, por favor.
.
-Aqui está, senhor.
-Obrigado.
..
-Eu gostaria de pedir o filé mignon ao molho madeira com risotto parma.
-Verei o que pode ser feito, senhor.
...
-Aqui está. Um belíssimo salmão à provençal acompanhado de cuscuz marroquino.
-Garçom, receio que tenha havido um engano, esse não foi meu pedido.
-O senhor está correto. No entanto, não há nada que eu possa fazer.
-Como assim?
-Aqui no restaurante nós temos a filosofia de sempre fazer o melhor para o cliente. Estamos certos de que o salmão despertará mais seu paladar que o filé. Por isso, não podemos deixar que o senhor escolha seu prato. Além do mais, carne vermelha não é muito saudável nessa idade e o risotto tem bastante colesterol. Só estamos fazendo o melhor para o senhor, senhor.
-Mas isso não foi o que pedi. Eu gostaria do filé com risotto.
-Eu compreendo senhor e insisto: coma o salmão, ele irá agradá-lo.
..
-Hum.
.
-E então, senhor?
-Realmente, estou surpreso. O prato está bastante apetitoso. O salmão está perfeitamente temperado, em uma mescla de acidez e frescor. O molho por sua vez possui uma pitada de prepotência presumida, mas não deixa de lado uma certa nostalgia frutada. O cuscuz, por outro lado, parte tanto do surrealismo azeitado quanto da lucidez agridoce para convergir em um único sabor adocicado de orvalho.
-Foi o que imaginamos. Agora o senhor aprova nossa filosofia?
-Não.
sábado, 6 de setembro de 2014
Toda argumentação é uma definição de conceitos
Quando duas pessoas discutem se A é ou não é B, elas estão na verdade tentando definir B e, posteriormente, se A se enquadra nessa definição. A maior parte das discussões é inconclusiva justamente porque as pessoas tem definições de B diferentes.
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Altertítulo
O ser humano habita simultaneamente dois meios, alteridade e realidade. O primeiro é exclusivo e singular para cada indivíduo. Ele está constantemente sujeito a transformações radicais, reversíveis e instantâneas. Nele o ser humano desfruta de um alto grau de liberdade. O segundo é seu oposto. É coletivo a todos indivíduos, suas transformações são processos burocráticos e a liberdade é severamente limitada. Não há alguém que fuja desses dois meios e todos estamos em eterna transição entre eles.
A alteridade é infinitamente mais agravável que a realidade.
Não é surpreendente que alguns passem grande parte do seu tempo nesse meio. As pessoas tendem a achar o outro insuportável. Por isso, o que cada indivíduo faz é tentar transformar o meio coletivo no seu meio individual. Toda ação planejada de um indivíduo na vida tem como objetivo aproximar-se desse meio. A satisfação pessoal está intrinsecamente ligada ao êxito dessas ações.
A vida pode ser resumida como bilhões de pessoas simultaneamente tentando transformar a mesma realidade em bilhões de diferentes alteridades.
A alteridade é infinitamente mais agravável que a realidade.
Não é surpreendente que alguns passem grande parte do seu tempo nesse meio. As pessoas tendem a achar o outro insuportável. Por isso, o que cada indivíduo faz é tentar transformar o meio coletivo no seu meio individual. Toda ação planejada de um indivíduo na vida tem como objetivo aproximar-se desse meio. A satisfação pessoal está intrinsecamente ligada ao êxito dessas ações.
A vida pode ser resumida como bilhões de pessoas simultaneamente tentando transformar a mesma realidade em bilhões de diferentes alteridades.
quarta-feira, 20 de agosto de 2014
O Contador de carneiros
Era um bom emprego. Contar carneiros não é difícil. É igual contar números, só que ao invés de números, carneiros. Falando assim parece mais complicado do que é, mas não é complicado. Contar carneiros é fácil. Difícil mesmo é conseguir ser demitido desse emprego. Eu consegui. Meus amigos riram quando eu contei que fui demitido. Eu ri com eles na hora, mas depois fiquei triste. Gostava muito do meu emprego. Sinto falta dele. Eu ajudava as pessoas. A maioria tinha problemas pra dormir, então me ligava pra eu ajudar elas. Eu ia na casa delas, sentava do lado da cama numa cadeira ou num banco, dependia da casa na verdade uma vez até sentei numa poltrona na casa de um senhor narigudo foi bem gostoso ela era vermelha. Bem que eu queria voltar lá mais algumas vezes mas agora não posso mais. Tudo começou porque fiz uma coisa que não devia. A maioria dos erros começam assim. Na verdade, acho que essa é a definição de um erro. Não sei, não sou filósofo. Sou um contador de carneiros. Pelo menos eu era, até cassarem minha licença. Por justa causa, é verdade. Fiz a única coisa que minha profissão não permite. Sabia que não devia ter aceitado aquele chamado. Meu telefone tocou no meio da madrugada. Tinha acabado de sair da casa de um homem nervoso, mas fiz ele dormir antes mesmo de chegar na casa do milhar. Na mesma noite, tinha feito uma criança cabeluda pegar no sono na casa da centena. Pensei em terminar o dia e ir pra casa. Ia desligar ali mesmo, não gosto de trabalhar com sonilóquios, a fala deles quando eles começam a entrar em sono profundo me desconcentra, e eu perco a contagem, aí preciso recomeçar e isso atrapalha todo o fluxo de sono deles e o trabalho não fica tão bom como eu gosto que fique. Mas ele parecia muito machucado pela insônia e eu tava me sentindo bem então eu aceitei. Toquei a campainha e um homem alto atendeu a porta. Era o mesmo do telefone, me indicou o quarto e pediu pra eu sentar. O quarto era pequeno mas tinha uma cama de madeira grande. A cadeira era de plástico. Comecei a contar assim que ele terminou de tomar o chá dele. Estava indo tudo bem e mais ou menos quando tinham trezentos e dezessete carneiros ele dormiu de vez. Contei mais um pouco, só pra garantir. Quando cheguei perto dos quatrocentos e sessenta e três carneiros as coisas começaram a ficar um pouco estranhas. Meu ritmo de contagem estava mais lento que o normal. Decidi aumentar o ritmo, e contei os próximos carneiros com mais energia. Mas em pouco tempo o ritmo caiu de novo. Não consegui entender o motivo. Com certeza ele não mentiu quando falou que era sonilóquio, o tempo todo ele emitia sons com a boca, mas não dava pra entender nenhum deles. A maioria das pessoas faz isso, só alguns poucos realmente falam frases compreensíveis, e esses barulhos não me atrapalham pra contar. Então não sei direito. Voltei a contar de onde parei, mas a partir de aí as coisas começaram a ficar nebulosas. Pouco a pouco fui encostando a cabeça na cadeira e meus olhos pesavam muito. Já não tinha mais vontade de continuar contando e a cadeira estava muito confortável. Parecia a poltrona vermelha. Na minha cabeça tudo que eu conseguia era imaginar era uma poltrona vermelha numa grande colina verde. Fiz a única coisa que eu não podia. Dormi.
Acordei com alguns fiscais no quarto. Já era de manhã, mas o homem alto continuava dormindo. Pediram para eu entregar meu crachá e sair do quarto em silêncio. Fiz o que me pediram. Estava muito triste. Triste por não ter feito um bom trabalho. Triste por ter perdido o emprego. Triste comigo mesmo. Isso foi há mais de 2 meses e eu não consigo parar de pensar nisso tudo. Eu ainda não sei o que aconteceu naquela noite. E os barulhos do homem também não saem da minha cabeça. Eram todos meio parecidos, mas só lembro bem dos últimos. Eu até tentei escrever, mas não faz sentido nenhum. Era alguma coisa tipo: "uonetauzendifórtitiuxipis uonetauzendifórtitrixips"
Acordei com alguns fiscais no quarto. Já era de manhã, mas o homem alto continuava dormindo. Pediram para eu entregar meu crachá e sair do quarto em silêncio. Fiz o que me pediram. Estava muito triste. Triste por não ter feito um bom trabalho. Triste por ter perdido o emprego. Triste comigo mesmo. Isso foi há mais de 2 meses e eu não consigo parar de pensar nisso tudo. Eu ainda não sei o que aconteceu naquela noite. E os barulhos do homem também não saem da minha cabeça. Eram todos meio parecidos, mas só lembro bem dos últimos. Eu até tentei escrever, mas não faz sentido nenhum. Era alguma coisa tipo: "uonetauzendifórtitiuxipis uonetauzendifórtitrixips"
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