domingo, 4 de maio de 2014

O Templo

Olhava o mar. Era uma manhã agradável de outono. Segundo seu horóscopo no jornal, seria um dia de grandes descobertas. Mas ele preferia a sessão de esportes, e sua única descoberta foi que seu time empatou fora de casa. Sentava numa pedra enquanto a manhã era agradável e olhava o mar. Gostava de fazer isso. Quando era mais novo, pegava o despertador do quarto do pai e colocava para quinze minutos antes do nascer do sol. Acordava num pulo enquanto o céu começava a trocar o preto pelo roxo e o roxo pelo azul. Ia correndo descalço pelas pedrinhas da trilha e as folhas molhadas de orvalho acariciavam seu corpo. Toda essa ansiedade sumia assim que a pequena mata acabava abruptamente e ele podia finalmente, do topo de um conjunto de pedras aos pés da água, ver o sol cumprimentar o mar. Sentava-se na mesma pedra que estava sentando agora, seu formato excepcionalmente achatado e largo e o fato de ela estar apoiada numa outra pedra maior que servia de encosto lhe rendeu o apelido carinhoso de O Trono, apelido que permanecia até hoje, mesmo que agora, passados alguns anos, o nome parecesse ligeiramente menos majestoso e vagarosamente mais infantil. Gostava de pensar que aquele lugar era só seu e de algumas gaivotas curiosas. E até onde sabia, era. Viajava todas férias de verão pra essa mesma praia há quase 20 anos e nunca havia visto ninguém no Templo (esse apelido continuava majestoso e vigoroso, apesar do tempo). Quando pequeno, se embaraçava um pouco para explicar aos amigos porque não podia dormir fora de casa e as vezes sentia um pouco de peso na consciência quando ouvia a mãe brigando com o pai sobre o atraso matinal, mas seu segredo permencia inviolável. Pretendia quebrá-lo um dia, assim que encontrasse a mulher certa para dividir seu pequeno paraíso. Até hoje, nenhuma de suas namoradas lhe convenceu de que estava pronta. Não que tivessem sido muitas, é verdade. A última terminou há pouco mais de uma semana. Insensível! Talvez devesse ter lido mais o horóscopo. Lembrou-se dos olhos vividos da mãe olhando o pai toda vez que ele contava a história de como eram opostos complementares. Desenrolou o jornal. Voltou a enrolá-lo. Viu o sol, que ascendia lentamente por cima das ondas e aquecia mansamente (não timidamente, porque não há astro mais desinibido que o sol) os preguiçosos grãos de areia da praia. Sentiu os primeiros raios de luz acariciarem seu rosto. Abriu um sorriso que quase chegou a uma risada. Aquilo era tao revigorante quanto uma boa noite de sono. Seu dia dificilmente poderia começar melhor.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Escolhas

Era uma manhã ensolarada. Mas isso não fez muita diferença pra ele, já que acordou as 2 da tarde, quando o dia já estava parcialmente nublado. Passou a madrugada lutando contra seus pensamentos, pensando em como o passado e o futuro se fundem numa coisa louca chamada presente. O presente é um presente. Pelo menos é o que a frase em ingles diz, Present is a gift. Pena que essa frase é um lixo em português, mas não dá pra ter tudo na mesma língua. Quando o capitão do time de português tirou timinho com o capitão do time inglês, escolheu a saudade primeiro. Também tomou algumas decisões ruins, como definir inadimplente como devedor e não como filho da puta ou algo pior. Tinha potencial, hoje é desperdiçada em reuniões de banco pra se referir a uma parcela de clientes. Mas quem realmente levou a melhor foi o time alemão, que ficou com a habilidade de juntar palavras pra criar uma nova com significado único. Isso veio ao custo de uma fonética agressiva, mas acho que valeu a pena. Se eu falasse alemão só ia inventar minhas próprias palavras. Não sei se é particularmente assim que funciona, se só funciona para adjetivos ou se eu ia parecer um imbecil falando desse jeito. Talvez antros. Antros é uma das palavras que o capitão do time de português perdeu a chance de escolher. Pra quem desconhece o significado, antros é o equivalente a ambos, mas para 3 termos. Falando em antros, quase me esqueci de voltar ao protagonista (a profissão dele é antropólogo). Na verdade, eu nem pretendia faze-lo. Os protagonistas e as histórias são só álibis (temos essa palavra e não antros) para que nós narradores possamos expor nossas próprias ideias. E nós, por nossa vez, somos só álibis dos autores, que exploram nossas vozes aveludadas para darem um tom grandioso e eloquente à sua imaginação acriativa (essa a capitão acertou em não escolher).

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Blog

Post pro Google reconhecer nas buscas.

Como xingar

Os únicos aspectos criticáveis de uma pessoa são os que decorrem de suas próprias decisões.


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Mínima

"Penso, logo penso."

domingo, 20 de outubro de 2013

Descoberta

Há mais de 45 anos vive um homem numa ilha tropical no meio de um Oceano. Não se sabe exatamente como ele surgiu na ilha, a lenda reza que ele apareceu um dia a beira da praia enrolado numa alface. Alguns dizem que era uma alface roxa, outros que era americana. O fato é que ele cresceu sozinho, sem qualquer contato com outros seres humanos ou indícios de civilização (o mais perto que ele chegou dela foi quando o narrador (eu) viu um documentário na televisão sobre a ilha).

Também sozinho ele aprendeu a sobreviver. O que não foi exatamente difícil, visto que o solo local era especialmente fértil, permitindo que ele obtivesse boa parte de sua alimentação da flora. A outra parte era suprida pela caça de coelhos, tão férteis quanto a ilha. Essa combinação, de proteína e subir em árvore,
vitamina e correr atrás de roedores (o correto seria lagomorfos, mas o homem não sabia disso pois não assistia canais televisivos sobre o mundo animal) fez com que seu corpo se desenvolvesse e, contrariando o estigma de franzino que os habitantes de lugares desertos comumente recebem, ele se tornou bastante forte. Estima-se que, na época,  ele conseguiria pegar cerca de 40kg de cada lado no supino.

Essa longa jornada, que se estende até os dias de hoje, foi marcada por diversos acontecimentos, alguns memoráveis, outros nem tanto. Como da vez que encontrou um coelho marrom, algo raro na história do homem visto que quase todos os coelhos do local eram brancos. Outra vez ele jogou uma pedra na água e ela fez um barulho diferente do habitual "BLUP", algo como "PLUM". Mas esse não foi um momento marcante e ele esqueceu-se do barulho da pedra poucas horas depois.

Certo dia, e esse sim foi um dia memorável, o homem estava sentado batucando com gravetos e pedras, como gostava de fazer nos fins de tarde. De repente, uma faísca surgiu e começou a queimar lentamente um dos palitos de madeira. O homem permaneceu atônito enquanto observava o fogo se espalhar por algumas folhas velhas que estavam perto e formar uma pequena fogueira. Estava maravilhado, nunca havia visto algo semelhante àquilo. Pensou em como poderia se aproveitar do calor no dias frios, ou da luz nas noites escuras. Aquela era realmente sua maior descoberta, algo que mudaria definitivamente seus dias na ilha.

Mas, poucos minutos depois desse acontecimento, um grupo de pessoas surgiu atrás de um arbusto e começou a jogar tomates em sua direção, apontando o dedo indicador enquanto vaiavam o homem. Chegaram diversas cartas, escritas em letras irritadas, que demonstravam indignação na própria grafia. Houve ainda multas por plágio e punições por quebra de patente. Fora o balde de água jogado imediatamente na fogueira, seguido por pisões impetuosos sobre os pequenos troncos de madeira aos gritos de "paga-pau!" e "copião!".


Aparentemente, alguém havia descoberto o fogo antes dele.

domingo, 13 de outubro de 2013

Paralelismo Gastrônomico

-Amor, o que você acha de dividir esse peixe ao molho pesto?

-Achei que você não gostasse de manjericão.

-Não amor, eu gosto. O que eu não gosto é violência urbana.

-Verdade.