quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Canhoto

Nasceu como todo mundo. Só que com uma diferença, era canhoto. A diferença é que, enquanto o resto escrevia com uma mão, ele escrevia com a outra. No fundo não mudava muita coisa. Ou mudava?

Quando pequeno, a mãe sorria ruborizada ao notar que ele costumava segurar seus brinquedos com a mão esquerda. Tentava apaziguar a situação. Deve ser coisa da idade, logo passa. O pai parecia mais desconfiado. Preocupava-se com o futuro. O que esse menino vai ser da vida se continuar assim?

Nos primeiros anos de escola, era possível observar algumas tendências. Ele apresentava um maior interesse pelas matérias que envolviam algum tipo de representação artística. Atividades relacionadas à lógica e a memória não lhe estimulavam muito. Aspectos que convergiam com uma recente linha de estudos que sua professora lia na época.

Quando aprendeu a escrever, as dificuldades ficaram ainda mais visíveis. Seus colegas de sala, ao perceberam a diferença, logo lhe deram o apelido de "tortinho". A professora se esforçava para coagir esse tipo de atitude, mas seus esforços eram quase sempre inúteis.

No futebol as coisas eram melhores. Por ser ligeiramente mais alto que a idade, tinha uma certa vantagem no jogo. A partir do esporte, adquiriu o respeito de seus colegas e criou uma amizade com alguns. No entanto, assim que cometia um único erro, era obrigado a ouvir do técnico: "eu falo que canhoto não pode ser zagueiro".

Foi uma grande alegria quando entrou na universidade. Seus pais pareciam aliviados e ele, de certo modo, também. Antigas incertezas do passado deixaram de sobrevoar o futuro.

Na faculdade, deu-se conta do contexto ao qual estava inserido. Ele, que sempre foi mais reservado, acabava frequentemente citado no meio de discussões sobre preconceito e exclusão social. Havia os que defendessem cotas e havia os que olhavam torto. Tentava manter-se alheio. Fez alguns amigos e estudava com afinco.

Já rapaz, conheceu uma moça. Risadas eram frequentes, interesses compartilhados, amor intenso.  Decidiram dar o próximo passo. Sua namorada marcou um jantar para apresentar-lhe aos pais.

No dia do encontro, tudo transcorria bastante bem. E era difícil pensar porque seria diferente. Ele era ligeiramente bonito, suficientemente educado e competentemente trabalhador. Os pais dela trocavam olhares de mútua satisfação. Eles dois trocavam olhares de mútua felicidade.

No entanto, a situação pareceu mudar completamente assim que ele sentou-se a mesa e inverte os talheres de posição. O tom da conversa tornou-se sensivelmente mais grave. As perguntas, mais invasivas. Os sorrisos, escassos.

Em poucas semanas o namoro desandou. O que era uma ensolarada certeza passou a uma tempestade de dúvidas. Terminaram.

Foi uma das poucas vezes que começou a duvidar da realidade. Memórias voltaram com uma sombra diferente. Por muitos anos conviveu sem questionar muito, atribuindo certos acontecimentos a meras coincidências ou fixações ideológicas. Teria sido negligente por muito tempo?

A vida seguiu medianamente por algum tempo.

Um dia, pegou o jornal. Bateu de olho com uma notícia: "Descoberto gene que define destros e canhotos".



A única diferença entre ele e o resto era que, dentre vinte mil partes minúsculas presentes em cada célula do corpo, uma era um pouco diferente.

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